
"Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?"
Essas são as primeiras palavras do Salmo 22. E Jesus as repetiu na cruz.
Isso me incomoda de um jeito bom. Porque significa que gritar pra Deus que você se sente abandonado não é falta de fé. É linguagem legítima de quem ainda está na conversa.
Davi começa esse salmo no pior lugar possível. Abandono. Silêncio de Deus. Choro de noite. Sem resposta. Ele diz: "Clamo de dia e não respondes; e de noite, e não há sossego para mim." (v.2). Transparente. Sem filtro. Sem a versão bonitinha da fé que a gente às vezes exibe.
Mas acontece algo no meio do salmo que é quase imperceptível se você lê rápido.
No versículo 24, o tom muda: "Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito; nem escondeu dele o seu rosto; mas quando clamou a ele, o ouviu." Davi passou do grito de abandono para o reconhecimento de que Deus ouviu. Sem que nada explique como chegou lá.
Não tem fórmula. Não tem técnica. Tem processo.
A fé que emerge do lamento não é a mesma que entrou nele. Ela é mais honesta, mais funda, menos dependente de circunstância. Você pode gritar pra Deus. Você pode dizer que não entende. Você pode sentar no chão com o salmo aberto e chorar junto com Davi.
O que você não pode fazer — e o próprio Salmo 22 prova — é concluir que o silêncio é abandono.
Às vezes o silêncio é só a virada ainda não chegou.
Senhor, nos dias em que pareço não te ouvir, que eu lembre que Tu ouviste Davi. E que Tu me ouves agora.
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