
"Por que te abates, ó minha alma?"
Essa pergunta está no Salmo 42. E ela me chamou atenção porque não é uma repreensão. É uma conversa. O salmista está falando com ele mesmo, tentando entender o próprio estado.
Isso é mais humano do que a maioria das pregações sobre fé deixa parecer.
Tem uma ideia equivocada que circula nos ambientes cristãos: a de que tristeza e fé não combinam. Que se você está no fundo, é porque faltou algo na sua vida espiritual. Mais oração, mais jejum, mais leitura. Como se a espiritualidade fosse um sistema de prevenção de sofrimento.
O Salmo 42 destrói essa premissa com elegância.
O escritor está com saudade de Deus. Está longe do lugar de adoração. Está sendo provocado por pessoas que dizem: "onde está o teu Deus?" (v.3). Está exausto. E ainda assim, no meio disso tudo, ele diz: "Ainda esperarei em Deus."
Não: "já estou melhor". Não: "resolvi minha crise de fé". Ainda. Presente contínuo. Esperança sem resolução.
A honestidade espiritual que o salmista pratica aqui é rara e necessária. Ele não performou vitória. Ele disse o que estava sentindo e decidiu esperar mesmo assim.
Você não precisa chegar em qualquer lugar com a máscara montada. Você não precisa fingir que o versículo funcionou antes de fazer efeito. A fé que o Salmo 42 mostra não é a da euforia — é a da teimosia gentil. Da alma que está no fundo e ainda olha pra cima.
Isso é suficiente.
Senhor, nos dias em que a alma se abate, que eu aprenda a esperá-Lo no escuro. Sem forçar a virada antes da hora.
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