
O título do Salmo 34 conta a história: Davi estava fugindo, entrou numa cidade inimiga e fingiu ser louco pra não ser morto.
Não é um cenário de glória.
E ainda assim o salmo começa: "Bendirei o Senhor em todo o tempo; o seu louvor estará continuamente na minha boca." (v.1).
Isso me para. Não porque é impossível, mas porque revela que o louvor de Davi não estava indexado às circunstâncias. Ele não esperou chegar em casa. Não esperou a crise passar. Não esperou ter uma história bonita pra contar. Abriu a boca dentro do problema.
Tem uma armadilha sutil que eu caio com frequência: achar que vou ter mais gratidão quando a vida estabilizar. Quando o projeto fechar. Quando a dívida acabar. Quando a relação melhorar. Como se a gratidão fosse consequência automática de circunstâncias favoráveis.
O Salmo 34 quebra essa lógica.
A gratidão que Davi pratica não é sentimento que emergiu naturalmente do contexto. É escolha ativa de memória e reconhecimento em qualquer contexto. É dizer: mesmo aqui, mesmo agora, mesmo fingindo loucura numa cidade estranha, eu sei quem Tu és.
Essa gratidão não depende do cenário estar perfeito. Ela perfura o cenário e encontra o que não muda.
O que você está esperando mudar antes de agradecer?
Senhor, que o meu louvor não espere o cenário perfeito. Que eu aprenda a abrir a boca mesmo quando ainda não passou.
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