
C. S. Lewis
Há livros que confortam. Outros confrontam.
Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz faz algo ainda mais perturbador: revela.
Ao começar a leitura, é fácil pensar que se trata apenas de uma sátira inteligente, quase divertida. Afinal, o tom é irônico, a proposta é criativa, e o humor aparece logo nas primeiras páginas. Mas essa impressão dura pouco. Muito pouco. Porque, à medida que avançamos, o riso dá lugar ao incômodo — e o incômodo à reflexão profunda.
Publicado em 1942, em meio a um mundo em guerra, o livro parece ter sido escrito para o nosso tempo. Lewis escolhe um caminho ousado: não fala diretamente sobre virtude, fé ou pecado. Em vez disso, nos convida a enxergar tudo pelo avesso — pelas cartas de um demônio experiente orientando seu sobrinho aprendiz sobre como afastar um homem comum de Deus.
E é justamente aí que mora o desconforto.
O leitor percebe, com certo espanto, que as estratégias do inferno não são grandes tragédias nem pecados escandalosos. São pequenas concessões. Distrações sutis. Orgulho disfarçado de humildade. Religiosidade sem arrependimento. Uma fé adiada para “quando a vida estiver mais calma”.
Lewis nos obriga a encarar uma verdade dura:
o mal raramente se apresenta como algo obviamente mau.
Grande parte das cartas gira em torno da mediocridade espiritual. O diabo não quer um pecador desesperado — ele prefere alguém satisfeito consigo mesmo, ocupado demais para orar, convencido de que está indo bem porque se compara com quem vai pior.
Não é o pecado gritante que mais preocupa o inimigo, mas a fé morna, confortável, sem vigilância.
Um dos pontos mais marcantes do livro é a forma como Lewis trata o tempo. O passado é usado para gerar culpa. O futuro, para produzir ansiedade. O presente — único lugar onde Deus age — é constantemente sabotado. O resultado é uma alma sempre distraída, nunca plenamente presente diante de Deus.
Quantas vezes estamos fisicamente em oração, mas mentalmente em outro lugar?
Lewis também desmonta a ilusão de que a vida cristã é feita apenas de sentimentos elevados. Ele mostra que os momentos de aridez espiritual não são fracassos, mas oportunidades de amadurecimento. Quando a fé deixa de depender da emoção e passa a se sustentar pela obediência, algo mais profundo começa a ser formado.
O problema é que preferimos sentir do que obedecer.
Outro confronto certeiro está no campo dos relacionamentos. O autor expõe como ressentimentos pequenos, palavras não ditas e expectativas silenciosas criam rachaduras que, com o tempo, se tornam abismos. Nada explode de uma vez. Tudo se desgasta aos poucos.
É o acúmulo do não tratado que endurece o coração.
O livro também critica uma espiritualidade baseada na aparência. Frequentar ambientes religiosos, repetir discursos corretos e defender posições “certas” não significa, necessariamente, transformação interior. O perigo não é errar — é achar que não precisamos mudar.
Lewis escreve com inteligência, mas nunca com leveza irresponsável. Cada página carrega um alerta: a guerra espiritual não acontece apenas em grandes decisões, mas nas escolhas comuns do dia a dia. No que alimentamos com a mente. No que toleramos no coração. No que deixamos passar por parecer pequeno demais.
Ao final da leitura, não sobra espaço para neutralidade. Ou nos tornamos mais vigilantes, ou ignoramos o espelho que o livro nos colocou diante do rosto.
Ficam perguntas que insistem em permanecer:
Quais distrações tenho aceitado sem perceber?
Onde minha fé tem se tornado automática?
Tenho vigiado meus pensamentos, intenções e motivações?
Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz não é um livro para leitura apressada nem superficial.
É um livro que exige honestidade.
E coragem.
Se você deseja amadurecer espiritualmente, compreender melhor suas lutas internas e desenvolver uma fé mais consciente e vigilante, este livro não será apenas uma boa leitura — será um chacoalhão necessário.
Um convite à lucidez.
Um alerta à alma.
Uma leitura que não termina quando o livro se fecha.

Sobre o livro
Cartas de um diabo a seu aprendiz
- Autor
- C. S. Lewis
- Tradução
- —
- Ano
- 2017
- Editora
- Thomas Nelson Brasil
- Páginas
- 208
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