
O Salmo 88 não tem final feliz.
Começa com clamor e termina com escuridão. Sem virada. Sem o "mas ainda esperarei em Deus" que aparece em outros salmos. Só o lamento e o silêncio.
"As minhas amizades afastas de mim... clamo a ti, Senhor, e de manhã a minha oração te precede... Por que, Senhor, rejeitas a minha alma?" (v.8, 13, 14).
E o último versículo: "As trevas são o meu único companheiro."
Isso está na Bíblia.
Isso quer dizer alguma coisa. Não sobre falta de fé do escritor, mas sobre o fato de que Deus não censurou esse salmo. Ele está no cânone. É Palavra.
O que eu leio nisso é uma permissão. Permissão pra nomear noites que não tiveram resolução. Noites em que você orou e não sentiu nada. Noites em que a sensação era de abandono real, não dramático. E você não sabia se deveria sentir culpa, tristeza ou raiva, ou os três juntos.
Não existe versículo que torne essas noites confortáveis. O Salmo 88 não promete isso.
Mas existe o fato de que alguém escreveu sobre essa noite, entregou pra Deus, e ele preservou esse texto por milênios. Como se quisesse dizer: eu vi essa noite. Ela importa. Você não estava errado em senti-la.
Às vezes a coisa mais espiritual que você pode fazer é nomear o escuro sem tentar resolvê-lo antes da hora.
Senhor, nas noites que não têm resolução fácil, que eu saiba que Tu as vês. Que o silêncio não é ausência. Que Tu preservastes até os salmos mais difíceis.
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